Se hoje passo muitas noites de olho no céu, devo isso a um hábito que começou quando eu tinha 10 ou 11 anos, mas que se reforçou ainda mais quando eu ia dos 16 para os 17.
No final dos anos 1980, o Brasil vivia uma efervescência de divulgação científica. Dá para citar ao menos duas revistas importantes dessa época: a Ciência Hoje, criada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e a Revista Geográfica Universal (uma clara alusão, até na diagramação da capa, à célebre National Geographic), editada pelo Grupo Bloch (fundador da Rede Manchete de televisão). É claro que a então toda-poderosa Editora Abril — dona de inúmeros títulos já consagrados, de revistas em quadrinhos a conteúdos de nicho — não deixaria de fincar aí sua bandeira.
1987: Uma supernova nos céus, outra nas bancas de revista
Foi nesse contexto que surgiu a Superinteressante, em setembro de 1987 — quando grande parte dos astrônomos profissionais do mundo tinha ainda seus instrumentos científicos apontados para a recém-descoberta supernova extragalática 1987A, que havia explodido na Grande Nuvem de Magalhães em fevereiro daquele ano (claro, 160 mil anos antes, na escala cósmica).
A diversificada equipe de profissionais da revista — lideradas então pelo competente editor-fundador Almyr Gajardoni — tinha inicialmente apenas a meta de traduzir a espanhola Muy Interesante. Porém — felizmente para nós — não teve escolha senão produzir reportagens próprias depois que o time técnico concluiu que os fotolitos espanhóis (as chapas de impressão) eram maiores do que os brasileiros. O resultado, provavelmente para surpresa de zero pessoas, foi um sucesso: a Abril viu a vendagem de exemplares avulsos e o número de assinantes crescerem vertiginosamente da noite para o dia.
Um Gigante da Astronomia Brasileira
Para aquele adolescente já fissurado em ciência e astronomia, um nome se destacava em meio a páginas de tanta qualidade: Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Mourão não era apenas um entusiasta divulgador da astronomia; ele era um acadêmico de prestígio internacional. Doutor pela Universidade de Paris com menção Très Honorable, construiu uma carreira sólida estudando estrelas duplas e asteroides em observatórios na Bélgica, na França e no Chile. Sua importância para a ciência é tamanha que o asteroide 2590, descoberto em 1980, foi batizado com seu nome em homenagem ao seu trabalho incansável.
Se os astrônomos amadores britânicos tiveram Sir Patrick Moore (que propôs a criação do Catálogo Caldwell), os brasileiros tiveram o Professor Mourão. Assim como Moore, Mourão entendeu que a ciência precisava sair das cúpulas dos observatórios e ganhar as ruas — ou, no meu caso, o quintal de casa.
A Didática que Vinha nas Bancas de Jornal
Lembro-me especificamente de ler sua coluna em setembro de 1988 sobre o "companheiro fantasma" da Supernova 1987A. Com clareza impressionante, ele explicava como a técnica de interferometria granular revelou um objeto misterioso ao sul da supernova, desafiando as teorias da época. Apresentava conceitos complexos como "velocidades relativistas" e "miragens gravitacionais" de um jeito que fazia qualquer jovem de 16 anos se sentir um pequeno cientista.
Mourão tinha uma produtividade assustadora: escreveu mais de cem livros e mil ensaios. Foi o responsável por todos os verbetes de Astronomia do dicionário Aurélio e idealizou o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), do qual foi o primeiro diretor. Única era sua capacidade de transitar entre o rigor da academia e a poesia do quadro O Céu do Brasil, que apresentava no "Projeto Minerva", programa oficial do governo no rádio (nos moldes de A Voz do Brasil), exibido nos anos 1970 — cujos episódios ainda dá para ouvir, em boa amostra, no acervo digital da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O Legado no Quintal
De volta à Superinteressante, através da coluna "Telescópio", acompanhávamos suas missões no Observatório Europeu Austral (ESO) e suas descobertas de asteroides em parceria com astrônomos estrangeiros. Ele não apenas nos dava dados; dava o contexto e a paixão necessários para manter os olhos voltados para cima.
Hoje, décadas depois, percebo que a semente plantada por aquelas colunas de final de mês floresceu. Se eu, através deste blog, conseguir difundir a astronomia com uma fração da didática do renomado cientista, ele já terá cumprido seu papel.
E você? Também teve seu interesse despertado pelo Professor Mourão ou por alguma leitura marcante de outro cientista ou autor da juventude? Compartilhe suas memórias nos comentários!




