Dicas de observação - a olho nú, com binóculo ou telescópio - para o astrônomo amador iniciante ou avançado.
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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Qual é a menor separação de estrelas duplas que seu telescópio consegue resolver?

Duas estrelas podem parecer uma só quando estão muito próximas no céu. A capacidade de distingui-las como dois pontos separados depende principalmente da abertura do telescópio. A tabela abaixo mostra, em segundos de arco, o limite teórico de resolução para algumas aberturas comuns.

Um segundo de arco corresponde a 1/3.600 de grau, isto é, um grau dividido em 3.600 partes! Para termos uma ideia dessa escala, a Lua cheia mede aproximadamente 30 minutos de arco de diâmetro aparente, o equivalente a cerca de 1.800 segundos de arco. Vênus, dependendo de sua distância da Terra, pode variar aproximadamente entre 10 e 60 segundos de arco, enquanto Netuno, o planeta mais distante do Sol – desculpe, Plutão –, aparece com pouco mais de 2 segundos de arco. Quanto menor o valor indicado na tabela, mais próximas podem estar as duas componentes de uma estrela dupla e ainda assim aparecerem separadas pelo telescópio.

Os valores foram calculados com base no limite de Dawes, uma estimativa da menor separação angular que um telescópio pode resolver em condições ideais. Esse limite pode ser calculado aproximadamente dividindo-se 116 pela abertura do instrumento em milímetros.

Lembre-se de que a tabela mostra apenas o limite teórico do telescópio. Para chegar perto desses valores, é preciso contar com uma atmosfera muito estável — isto é, bom seeing —, um instrumento de boa qualidade, corretamente colimado e já aclimatado à temperatura ambiente, além de um aumento apropriado. Dependendo da separação das estrelas, podem ser necessários aumentos de 200× ou mais.

Além disso, estrelas com grande diferença de brilho costumam ser mais difíceis de separar do que pares cujas componentes possuem brilhos semelhantes. O limite de Dawes também representa uma situação idealizada: na observação real, a qualidade óptica, a experiência do observador e as condições atmosféricas podem alterar bastante o resultado.

Em outras palavras, um telescópio de maior abertura tem potencial para resolver separações menores, mas a atmosfera quase sempre é quem dá a palavra final.

E na astrofotografia?

A abertura do telescópio e o seeing também estabelecem os limites fundamentais da resolução na astrofotografia, mesmo quando as estrelas duplas não são o objeto principal da imagem. Em fotografias de nebulosas, galáxias ou aglomerados, por exemplo, uma atmosfera estável, foco preciso, boa amostragem e acompanhamento adequado fazem com que as estrelas de fundo sejam registradas com perfis menores, mais nítidos e mais arredondados, em vez de aparecerem inchadas, alongadas ou deformadas. 

O resultado registrado pela câmera também depende da distância focal, do tamanho dos pixels e da escala de imagem. Flats e dark frames corrigem imperfeições e certos tipos de ruído, mas não aumentam o poder de resolução do telescópio. Já a captura de vários quadros, a seleção das melhores imagens e o empilhamento podem reduzir os efeitos da turbulência e tornar mais evidentes detalhes que não aparecem claramente em uma única exposição. Essas técnicas não ultrapassam o limite físico imposto pela abertura, mas ajudam a aproveitar melhor a resolução disponível.

E você? Qual foi a estrela dupla mais fechada que já conseguiu separar? Conte nos comentários qual telescópio e qual aumento utilizou.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A Visão dos Gatos e a Nossa: Quem Enxerga Melhor o Céu Noturno?

Felinos precisam de uma fração da nossa luz para caçar nas sombras, mas isso não significa que eles vejam um Universo mais estrelado. A resposta para esse paradoxo está na diferença entre brilho e nitidez.




 Se você tem já viu um gato passeando pelo quintal de madrugada, movendo-se pela escuridão com a confiança de quem passeia ao meio-dia, como apaixonado pelo céu que é, é natural que tenha feito uma suposição lógica: se os olhos deles são tão eficientes no escuro, o céu que eles enxergam deve ser uma explosão de estrelas que nós somos incapazes de ver. 

 A intuição diz que sim, mas a ótica conta uma história muito mais intrigante. Embora os felinos sejam mestres inquestionáveis da visão em baixa luminosidade, a maneira como seus olhos processam a luz revela que eles não são astrônomos melhores do que nós. Para entender o porquê, precisamos olhar para o céu não apenas como um lugar escuro, mas como um palco dividido entre pontos minúsculos e vastas nuvens de luz – e descobrir por que os gatos perdem para nós quando o assunto é observar as estrelas. 

O paradoxo do ponto de luz 


Para medir o brilho de uma estrela, os astrônomos usam a escala de magnitudes. Sob um céu ideal, longe da poluição luminosa das cidades, um olho humano saudável e adaptado à escuridão consegue distinguir pontinhos estelares até a magnitude +6,5. 

 Como os gatos possuem pupilas que se dilatam muito mais que as nossas, além de uma retina forrada de células ultra-sensíveis à luz (os bastonetes), esperaríamos que eles vissem estrelas ainda mais fracas. Mas as estrelas não são objetos comuns. Elas estão tão distantes que chegam até nós como fontes pontuais quase perfeitas. Para enxergar um ponto de luz tão reduzido, não basta que o olho colete muitos fótons; ele precisa focar essa luz em uma área igualmente minúscula na retina. 

 É aí que a visão humana ganha o jogo. A nossa acuidade visual – a capacidade anatômica de focar em detalhes finos – é de cinco a dez vezes superior à de um gato. Nos olhos felinos, a luz daquela mesma estrela acaba "borrada" e espalhada por uma área maior, perdendo contraste contra o fundo escuro do céu. O resultado é contra-intuitivo: o céu estrelado de um gato tem, muito provavelmente, o mesmo número de estrelas que o nosso – talvez até menos. 

A Via Láctea em alta exposição 


Se os gatos perdem na resolução de estrelas individuais, a balança pende para o outro lado quando o objeto de observação deixa de ser um ponto e passa a ser uma mancha no céu. 

 Pense na Via Láctea cruzando o zênite em uma noite sem Lua, ou no brilho fantasmagórico das Nuvens de Magalhães. Esses objetos astronômicos não exigem nitidez; eles exigem sensibilidade ao brilho superficial, que é exatamente a capacidade de detectar contraste entre uma nuvem de luz difusa e a escuridão ao redor. 

 Neste cenário, a biologia felina mostra seu poder. Atrás da retina dos gatos existe o tapetum lucidum, uma camada refletora que age como um espelho interno. Quando a luz das galáxias entra, ela atinge os fotorreceptores e bate nesse espelho, sendo refletida de volta para uma segunda chance de absorção pelos olhos (é isso que faz os olhos deles brilharem intensamente no escuro). 

Sob um céu noturno profundo, a Via Láctea provavelmente aparece para o seu gato como uma faixa luminosa larga, contínua e muito mais destacada do que você jamais conseguirá ver a olho nu.

O preço da evolução Darwiana


 Na natureza, toda vantagem biológica exige um sacrifício. O mesmo tapetum lucidum que dobra a captação de luz da Via Láctea também espalha os fótons dentro do olho, causando o leve desfoque que prejudica a visão das estrelas pontuais e de detalhes como as linhas de poeira escura de galáxias distantes. Nós evoluímos com olhos excelentes para ler e focar em particularidades mínimas de luz e cor. Os felinos foram moldados por milhões de anos para uma tarefa completamente diferente: detectar o movimento sutil e as formas gerais de presas no meio do mato durante o crepúsculo. Eles conseguem navegar com confiança usando apenas um quarto da luz de uma Lua cheia, mas pagam o preço entregando a resolução. 

No final das contas, eles não enxergam um Universo mais espetacular. Eles observam um Universo diferente, pintado com pinceladas largas de luz e sombra, em vez dos pontos afiados que mapeamos em nossas constelações. Da próxima vez que você estiver sob um céu limpo, tente imaginar a abóbada celeste como seu gato a vê: uma maré de luz suave e imensa, cruzando um céu onde as estrelas não importam tanto, mas o brilho do todo é inesquecível.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Contexto - Por que ele é tão importante à astronomia observacional

Nem sempre o que agrada aos olhos é necessariamente agradável ao cérebro. 


Foto: Kelly Sikkema - Unsplash


Uma pergunta


Qual dos comentários abaixo você prefere ouvir, ao mostrar a lua, Júpiter, Saturno ou um aglomerado globular no seu telescópio a um amigo, parente ou um completo desconhecido nas sessões públicas do seu clube?

a) "Nossa! Que telescópio grande! Aposto que custou uma nota!"? ou apenas:

b) "Uau!" ?

Eu particularmente acho que, se alguém está na astronomia apenas pra ouvir o primeiro comentário,  provavelmente escolheu o hobby errado.

Dadas as evidências, minha opinião é que essa pessoa provavelmente se satisfaria mais gastando dinheiro em som automotivo para competição, por exemplo - onde gastos com equipamento são, lógico, proporcionais ao número de elogios (e massagens no ego) recebido por outros admiradores desse hobby.

(C) Walt Disney Comics

Ou então, apelando pro viés cômico, tentar ficar sócio de um daqueles caricatos clubes de bilionários das histórias do Tio Patinhas escritas por Carl Barks e ficar se vangloriando e fazendo apostas estrambóticas com os demais magnatas, enquanto fuma um charuto cubano e degusta seu brandy.

Desserviço


Massagens no ego à parte, acho que o "astrônomo" que se  satisfaz com o primeiro tipo de comentário, não só está no hobby errado, mas também presta um verdadeiro desserviço à comunidade astronômica amadora ao não combater o mito de que uma ciência tão inclusiva como a astronomia seria um hobby para uns poucos olhos e bolsos privilegiados; algo que só neurologistas ou desembargadores aposentados, com grana sobrando podem fazer. Claro que não é!

Em nome do bom senso, temos que deixar claro à esta pessoa - que na ocasião vai estar receptiva a quase tudo que você disser - o quão inclusiva a astronomia amadora é.  Esclarecer que, ao menos para se começar, não são necessários nada mais que o par de olhos e cérebro que essa pessoa já possui e mais tarde, caso ela realmente interesse a aprender mais sobre o céu e o que vê nele, a aí sim adquirir um par de binóculos ou "tele".

Felizmente...


foto: Mostafa Meraji  - Unsplash


Felizmente a maioria dos astrônomos amadores não pensa de maneira consumista. Maioria esta que conheci tanto aqui no Brasil como na Inglaterra, quando participei de alguns eventos da Abingdon Astronomical Society, na região de Oxford, e comecei a observar mais seriamente.

Muito astrônomos amadores estão no hobby movidos por aquela curiosidade que vem os consome desde garotos e que os faz sentir uma verdadeira fascinação não só por telescópios (ou binóculos) que, diga-se de passagem, são para o astronomo, o que o martelo é para o carpinteiro, ou o macaco para o mecânico - apenas ferramentas de captar luz! Ferramentas estas que facilitam acesso ao  conhecimento de algo que "está lá, mas não dá pra ver".

E é com base nesse conhecimento que afirmo ser o contexto o mais poderoso aliado da astronomia observacional.


"

contexto /ê/

substantivo masculino

 1. inter-relação de circunstâncias que acompanham um fato ou uma situação.

"


Ele é a maneira mais eficaz (e barata) de evitar cair no marasmo e ficar observando sempre os mesmos velhos objetos "batidos" de sempre, como lua, nebulosa de Órion e afins- com todo o respeito às respectivas grandiosidades e noites de observação frutífera que eles proporcionam!

 
Enjoou de astronomia visual e acha que ela é uma espécie de "astronomia de pobre" e acha que só a astrofotografia poderá te salvar do tédio!?
Sua GOTO, apesar de ter um imenso banco de dados, aponta, na maioria, para "nuvenzinhas sem graça"?

Pois é, caro astrônomo, está faltando contexto na sua astronomia!

Sim,  já que ela possibilíta-nos entender desde uma reles piada a um ponto de vista de um especialista.

Menos materialismo e mais substância, por favor 


Para que caiu/está caindo no marasmo astronômico, minha recomendação é simplesmente fazer aquilo que venho praticando há décadas: aprender, aprender e aprender! Seja através de livros, websites, videos, etc.
Ainda mais nos tempos atuais, aonde não há desculpas para não conhecermos ao menos um pouco sobre o que observamos.

Por exemplo, um dos objetos que mais me deu satisfação em observar (em mais de uma ocasião, pois acabou deixando um gostinho de "quero mais") foi o distante quasar 3C 273 em Virgem, situado a 2 bilhões de anos-luz daqui (põe distante nisso!).
Nem bonito era: uma mera "estrelinha" de magnitude 12,7 situada numa região do céu geralmente mais visada por donos de telescópio por conta das inúmeras galaxias alí observáveis - tanto sozinhas ou, mais comumente em aglomerados de galáxias.
Porém, o contexto está em imaginar "ao pé da ocular" que, quando a luz que agora atingia minha retina, formando a imagem estelar (insignificante, alguns diriam) partiu desse nucleo ativo de galáxia em sua jornada de 2 bilhões de anos até nossa Terra, esta passava ainda pelo primeiro período geológico, o Pré-Cambriano, na era Paleoproterozóica (que nome!), que foi aquela onde, dentre outras coisas, houve uma liberação maior de oxigênio no planeta fazendo, com a oxidação, com que os oceanos adquirissem a cor azul de hoje em dia e surgissem os primeiros organismos eucariontes (isto é, cujas células possuem núcleo definido, cercado por membrana e que que viria a gerar os primeiros organismos pluricelulares) - ou seja, bem antes dos dinossauros, que surgiriam somente cerca de 1,2 bilhões de anos mais tarde!!

K.M. Towe, NASA


Muito além da imagem 


Tá vendo só? Dá ou não dá para curtir a astronomia mais ainda, sob essa ótica multidisciplinar?
Pois é justamente esse contexto que mantém viva em mim a chama da busca pelo conhecimento e que me leva a dedicar-me à astronomia, não uma mera imagem bonitinha vista por equipamentos que mais impressionam pelo visual externo que pelo conhecimento inerente que trazem, meros instrumentos que são.


Foto: Greg Rakozy - Unsplash


Portanto, se está chateado, faça um favor a si mesmo e à sua inteligência: satisfaça seu cérebro; não apenas seus olhos.

Observe objetos e sempre pergunte-se coisas do tipo, conformer a categoria deste:

Se for estrelas: "É uma variável?", "É uma subgigante ou gigante?", "O que faz uma estrela de carbono ser tão vermelha?";

Sistema solar: "A quantas horas-luz esse planeta está daqui?" ou "Quais as propriedades desta lua? Ela poderia sustentar vida?"

Céu profundo: "Essa nova/supergigante poderá virar supernova num futuro não tão distante?", "Quando a luz dessa galáxia saiu de lá, o que se passava aqui na terra?"


 Tá vendo como dá para tirar muito mais proveito da astronomia que elogios a equipamento ou "fotinhas" bonitinhas!?

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Aumento vs. Planetas


Qual o aumento necessário no telescópio para deixar os outros planetas do tamanho da lua vista a olhou nú?

(Publicado em novembro de 2018; atualizado em agosto de 2019)

Comparação real do tamanho da lua cheia e Júpiter (com as 4 luas galileianas) numa mesma foto.

Considerando-se o tamanho aparente médio de 32" (32 minutos de arco) de nosso satélite natural e o dos planetas como o tamanho máximo atingido pelos mesmos, a conta é simples:


Mercúrio: 150x

 

Vênus:  30x

 

Marte: 77x *

 

Júpiter: 38x *

 

Saturno: 96x *


Urano: 480x (impraticável em instrumentos com menos de 250mm de abertura, mas dá pra chegar bem perto disso com um de 200mm)


Netuno: 800x (teoricamente viável com dobsonianos de 400mm de abertura, mas à essa altura, condições atmosféricas e fenômenos óticos atrapalhariam muito antes de se atingir esse valor)


Lembrando que, para calcular o aumento utilizado, divida o comprimento focal do seu telescópio pelo comprimento focal da ocular. 

Ex: Meu Celestron C8 possui 2032mm de CF, com uma ocular de 10mm o aumento proporcionado é de cerca de 203 vezes. (2032/10).

 

 

* Para estes planetas, é claro que observadores experientes sabem que dá pra se aumentar muito mais, porém vale lembrar que com ressalvas:


Júpiter: devido ao relativo baixo contraste de sua superfície, aumentos maiores que 200x não trazem tantos benefícios; O que pode beneficiar a visão de maiores detalhes é na verdade instrumentos propriamente colimados ou então, espelhos ATM de qualidade comprovadadamente superior como um Zambuto (americano) - a "ferrari" dos espelhos newtonianos - ou, aqui no nosso pavorosamente escarso mercado astronômico brazuca, um espelho feito por alguém como Sandro Colleti, por exemplo.
 

Saturno: Devido aos pequenos detalhes e divisões de seus anéis, dá para se ir um pouco mais além (cerca de 250x). Mais as mesmas recomendações de colimação e espelho, estipuladas para Júpiter.


Marte: Devido ao alto contraste de sua superfície, a regra para o planeta vermelho é: quanto mais aumento melhor! (limitado, lógico pela abertura do instrumento e condições do céu).

E quanto a Urano e Netuno? Qual aumento seria necessário para ver-se alguma espécie de detalhe em suas superfícies?  Não "ver" mas sim "fotografar" - pois só com excelente domínio da técnica de stacking além de espelhos de 400mm para cima, é que alguém como Damien Peach conseguiu obter detalhes "borrados" desses astros, como brilhantes tempestades em Netuno, por exemplo. (só não espere muito do mais pacato Urano; ainda que sua proximidade e tamanho resultem em um disco aparente maior).

 

Seu Telescópio e a Lua

 

Você Sabia??

Menores características lunares vistas com telescópios amadores: 

 

Lembre-se que os números abaixo advêm de fórmulas óticas considerando um instrumento "ideal". Eles não levam em conta, portanto, limitações do próprio instrumento, aclimatação, condições atmosféricas, etc.

 

Para um instrumento "ideal" de 180mm de abertura:

Diâmetro da menor cratera observável: 2,4 km;

Menor rio de lava seca detectável: 137 metros;

Menor rio completamente resolvível : 1 km.

 

Para um instrumento "ideal" de 200mm de abertura:

Diâmetro da menor cratera observável: 1,76 Km;

Menor rio de lava seca detectável: 101 metros;

Menor rio completamente resolvível : 810 metros.

(Fonte: "Observing the Moon" by Peter T. Wlasuk - 2000, Pg. 108)

 


Aí vem aquela pergunta tão comumente feita a nós amadores durante observações públicas, mas que, pela validade, deve ser tratada com a devida seriedade:

"Dá pra ver os objetos deixados pelas missões Apollo?"


Falarei mais sobre esse assunto específico em breve.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Uma Estrela Chamada Bunda

Você Já Viu a Bunda?

Foto da estrela - Copyright (C) The SIMBAD astronomical database

Independentemente de sua experiência como astrônomo amador, aposto que nunca ouviu falar da estrela Bunda, ouviu?

 

Pois é. Não se surpreenda; isso não é nenhuma zoeira minha não: 

 

 Trata-se de uma estrela discreta, pouco brilhante, que, apesar de sua obscuridade, tem tudo para, ao menos no Brasil, onde a palavra "bunda" possui um significado, hmm... "importante" (nádegas, para quem é de fora), a estrela possivelmente irá virar motivo de piadinhas e chacota por membros de inúmeros grupos de astronomia espalhados pelo Facebook, Whatsapp etc., do tipo "Vamos ver a bunda?" e até como será meu caso, no próprio clube astronômico ao qual pertenço - o CAS (Clube de Astronomia de Sarandi), aqui pertinho de Maringá, onde moro - no qual lógico, serei o primeiro a fazer tão importante "comunicado"!

 

Que nome!

 

A estrela em particular é a Ksi Aquarii (pronuncía-se "ksí aquári"), ou, mais precisamente, "ξ Aquarii", que agora, possui esse nome inusitado, agora oficializado pela União Astronômica Internacional (IAU, em inglês). 

 

Lógico que esse nome, é apenas, como acontece com todas as estrelas, uma de várias  denominações dadas à estrela por diversos catálogos, que vão do famoso catálogo de Bayer (letra grega ou latina seguida do genitivo da constelação à qual pertence) ou qualquer outro como Henry Draper (HD205767), o nome do catálogo do satélite Hipparcos (HIP106786) ou ainda do catálogo do observatório de Yale (HR8264), dentre vários outros, como é comum com denominações estelares.

 

A Bunda Tá Aparecendo?

 

 Se você está se perguntando o porquê de nunca ter ouvido falar na Bunda, o motivo é simples:
Foi há pouco tempo, junho último (2018) que a IAU parece ter oficializado este nome, juntamente com 23 outras estrelas -  como "La Superba" (Y Canum Venaticorum) e "Felis" (HR 3923) - à sua longa lista de nomes oficiais próprios de estrelas, como pode ser visto aqui e também ilustrado abaixo.

 

 

Vendo Observando Bunda

 

"E como faço para ver observar a bunda?", você deve estar se perguntando. 

Bem, a boa notícia é que não será necessário nenhum telescópio enorme, ultra-fodástico; nem mesmo binóculos. 

Pois com magnitude 4,8, só não será possível vê-la a olho nú nos céus com poluição luminosa mais severa (isto é, nos grandes centros urbanos). 

 Já para quem mora nos bairros longe do centro da cidade (acho que 95% de todos os brasileiros e portugueses), ou para os pouquíssimos felizardos que moram em céus mais escuros (Bortle 5 ou menor) ela será relativamente fácil de se ver. 

Note no entanto, à exceção dos astrônomos "mateiros", que conhecem bem o céu, ser "fácil de se observar" não significa necessariamente que seja "fácil de se encontrar"! 

Porém, desde que se conheça o céu, ou então que você saiba usar um mapa estelar - impresso ou em uma app no seu smart phone, encontrá-la não será, com vontade própria aliada à curiosidade, problema algum.

Como pode ser visto pela legenda, o mapa abaixo foi feito com base na latitude de Maringá e, com exceção dos planetas, será visível à noite, de agosto a dezembro, nessa região do céu durante qualquer ano que você esteja porventura lendo este artigo.


Céu visto à 23º de latitude sul (Maringá-PR) no final de outubro de 2018 às 21 horas na direção oeste-noroeste.
Bunda aparece à direita e abaixo do planeta Marte (à esquerda e acima, para observadores no hemisfério norte) - Imagem gerada por YourSky web app.

 

Conhecendo Bunda

(OK, chega de piadinhas!)

 

Na verdade há duas partes da Bunda (só mais esta!), pois trata-se de um sistema binário (isto é, duas estrelas orbitando-se mutualmente)* situado a, segundo medidas de paralaxe do satélite Hipparcos, 179 anos-luz de distância daqui. 

 

Ou seja, em 2019, a luz chegando à retina de qualquer observador aqui na Terra, terá na verdade saído da estrela no longíquo ano de 1840 - mesmo ano em que foi lançado o Penny Black - primeiro selo postal do mundo; ou quando o mestre do gótico, Edgar Allan Poe ainda estava por publicar, no ano seguinte, "Os Assassinatos na Rua Morgue" ou a então jovem Rainha Vitória (tataravó da Rainha Elizabeth II) [Isabel II, no português lusitano] havia acabado de iniciar seu longo reinado - que duraria até 1901 - há apenas 3 anos! 

 

  A classificação estelar de seus dois componentes é:

A componente principal - a que teve a designação de "Bunda" - é ξ Aquarii A (o componente A de um sistema binário é o de maior massa) e é classificada A7 V, isto é, uma enorme estrela branca (o sol é amarelado).
Essa é a mesma classe espectral das nossas conhecidíssimas Altair, na constelação da águia (A7 V também) ou de Sírius, a estrela mais brilhante no céu (A1 V) e Vega, na constelação da Lira (A0 V).



Com massa de 1,9x a do nosso Sol, ela é quase duas vezes mais "pesada" que este. Os componentes dessa classe porém, não chegam a ter seu diâmetro 2 vezes maior que o do sol. Isto é, a Terra, em analogia de tamanho, seria uma ervilha em comparação ao Sol que por sua vez seria uma bola de basquete; Bunda seria uma melancia das grandes.

Já sua companheira, ξ Aquarii B, especula-se, pode ser uma anã vermelha ou branca.

 

Fala sério!

 

 Independente das inevitáveis piadas, as quais, a exemplo do que já acontece em inglês com o planeta Urano - que, para quem não sabia ainda, é pronuciado algo como YOUR-ANUS (entendeu!?) - espero ter deixado claro aos interessados em simplesmente contemplar o céu - iniciantes ou não - a verdadeira inclusão à qual se propões a astronomia amadora, ao, na sua forma mais simples, não exigir que seu praticante (você) seja dono de instrumentos caríssimos - mas sim, que seja dono de um bom par de olhos (ou não, para quem apenas se contenta em ler ou que não possua o dom da visão) e de sede de conhecimento!


Espero que, esta minha primeira postagem, tenha obtido êxito nessa missão. 

Quer seja por conta de analogias (a distância que a luz do objeto observado levou para chegar aqui *2, ou as analogias de tamanho com nossa Terra, para melhor entendimento)  , quer seja pelo humor leve, ter deixado isso claro, de certa forma.


*1 (somente para astrônomos) Não adianta correr pegar o telescópio para tentar separar os dois componentes: trata-se de uma binária espectroscópica, (separação de 0,2 segundos de arco, segundo o SkySafari) e não visual.

 

 *2 Aguardem mais postagens a respeito desse assunto.