Dicas de observação - a olho nú, com binóculo ou telescópio - para o astrônomo amador iniciante ou avançado.
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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Qual é a menor separação de estrelas duplas que seu telescópio consegue resolver?

Duas estrelas podem parecer uma só quando estão muito próximas no céu. A capacidade de distingui-las como dois pontos separados depende principalmente da abertura do telescópio. A tabela abaixo mostra, em segundos de arco, o limite teórico de resolução para algumas aberturas comuns.

Um segundo de arco corresponde a 1/3.600 de grau, isto é, um grau dividido em 3.600 partes! Para termos uma ideia dessa escala, a Lua cheia mede aproximadamente 30 minutos de arco de diâmetro aparente, o equivalente a cerca de 1.800 segundos de arco. Vênus, dependendo de sua distância da Terra, pode variar aproximadamente entre 10 e 60 segundos de arco, enquanto Netuno, o planeta mais distante do Sol – desculpe, Plutão –, aparece com pouco mais de 2 segundos de arco. Quanto menor o valor indicado na tabela, mais próximas podem estar as duas componentes de uma estrela dupla e ainda assim aparecerem separadas pelo telescópio.

Os valores foram calculados com base no limite de Dawes, uma estimativa da menor separação angular que um telescópio pode resolver em condições ideais. Esse limite pode ser calculado aproximadamente dividindo-se 116 pela abertura do instrumento em milímetros.

Lembre-se de que a tabela mostra apenas o limite teórico do telescópio. Para chegar perto desses valores, é preciso contar com uma atmosfera muito estável — isto é, bom seeing —, um instrumento de boa qualidade, corretamente colimado e já aclimatado à temperatura ambiente, além de um aumento apropriado. Dependendo da separação das estrelas, podem ser necessários aumentos de 200× ou mais.

Além disso, estrelas com grande diferença de brilho costumam ser mais difíceis de separar do que pares cujas componentes possuem brilhos semelhantes. O limite de Dawes também representa uma situação idealizada: na observação real, a qualidade óptica, a experiência do observador e as condições atmosféricas podem alterar bastante o resultado.

Em outras palavras, um telescópio de maior abertura tem potencial para resolver separações menores, mas a atmosfera quase sempre é quem dá a palavra final.

E na astrofotografia?

A abertura do telescópio e o seeing também estabelecem os limites fundamentais da resolução na astrofotografia, mesmo quando as estrelas duplas não são o objeto principal da imagem. Em fotografias de nebulosas, galáxias ou aglomerados, por exemplo, uma atmosfera estável, foco preciso, boa amostragem e acompanhamento adequado fazem com que as estrelas de fundo sejam registradas com perfis menores, mais nítidos e mais arredondados, em vez de aparecerem inchadas, alongadas ou deformadas. 

O resultado registrado pela câmera também depende da distância focal, do tamanho dos pixels e da escala de imagem. Flats e dark frames corrigem imperfeições e certos tipos de ruído, mas não aumentam o poder de resolução do telescópio. Já a captura de vários quadros, a seleção das melhores imagens e o empilhamento podem reduzir os efeitos da turbulência e tornar mais evidentes detalhes que não aparecem claramente em uma única exposição. Essas técnicas não ultrapassam o limite físico imposto pela abertura, mas ajudam a aproveitar melhor a resolução disponível.

E você? Qual foi a estrela dupla mais fechada que já conseguiu separar? Conte nos comentários qual telescópio e qual aumento utilizou.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Uma Estrela Chamada Bunda

Você Já Viu a Bunda?

Foto da estrela - Copyright (C) The SIMBAD astronomical database

Independentemente de sua experiência como astrônomo amador, aposto que nunca ouviu falar da estrela Bunda, ouviu?

 

Pois é. Não se surpreenda; isso não é nenhuma zoeira minha não: 

 

 Trata-se de uma estrela discreta, pouco brilhante, que, apesar de sua obscuridade, tem tudo para, ao menos no Brasil, onde a palavra "bunda" possui um significado, hmm... "importante" (nádegas, para quem é de fora), a estrela possivelmente irá virar motivo de piadinhas e chacota por membros de inúmeros grupos de astronomia espalhados pelo Facebook, Whatsapp etc., do tipo "Vamos ver a bunda?" e até como será meu caso, no próprio clube astronômico ao qual pertenço - o CAS (Clube de Astronomia de Sarandi), aqui pertinho de Maringá, onde moro - no qual lógico, serei o primeiro a fazer tão importante "comunicado"!

 

Que nome!

 

A estrela em particular é a Ksi Aquarii (pronuncía-se "ksí aquári"), ou, mais precisamente, "ξ Aquarii", que agora, possui esse nome inusitado, agora oficializado pela União Astronômica Internacional (IAU, em inglês). 

 

Lógico que esse nome, é apenas, como acontece com todas as estrelas, uma de várias  denominações dadas à estrela por diversos catálogos, que vão do famoso catálogo de Bayer (letra grega ou latina seguida do genitivo da constelação à qual pertence) ou qualquer outro como Henry Draper (HD205767), o nome do catálogo do satélite Hipparcos (HIP106786) ou ainda do catálogo do observatório de Yale (HR8264), dentre vários outros, como é comum com denominações estelares.

 

A Bunda Tá Aparecendo?

 

 Se você está se perguntando o porquê de nunca ter ouvido falar na Bunda, o motivo é simples:
Foi há pouco tempo, junho último (2018) que a IAU parece ter oficializado este nome, juntamente com 23 outras estrelas -  como "La Superba" (Y Canum Venaticorum) e "Felis" (HR 3923) - à sua longa lista de nomes oficiais próprios de estrelas, como pode ser visto aqui e também ilustrado abaixo.

 

 

Vendo Observando Bunda

 

"E como faço para ver observar a bunda?", você deve estar se perguntando. 

Bem, a boa notícia é que não será necessário nenhum telescópio enorme, ultra-fodástico; nem mesmo binóculos. 

Pois com magnitude 4,8, só não será possível vê-la a olho nú nos céus com poluição luminosa mais severa (isto é, nos grandes centros urbanos). 

 Já para quem mora nos bairros longe do centro da cidade (acho que 95% de todos os brasileiros e portugueses), ou para os pouquíssimos felizardos que moram em céus mais escuros (Bortle 5 ou menor) ela será relativamente fácil de se ver. 

Note no entanto, à exceção dos astrônomos "mateiros", que conhecem bem o céu, ser "fácil de se observar" não significa necessariamente que seja "fácil de se encontrar"! 

Porém, desde que se conheça o céu, ou então que você saiba usar um mapa estelar - impresso ou em uma app no seu smart phone, encontrá-la não será, com vontade própria aliada à curiosidade, problema algum.

Como pode ser visto pela legenda, o mapa abaixo foi feito com base na latitude de Maringá e, com exceção dos planetas, será visível à noite, de agosto a dezembro, nessa região do céu durante qualquer ano que você esteja porventura lendo este artigo.


Céu visto à 23º de latitude sul (Maringá-PR) no final de outubro de 2018 às 21 horas na direção oeste-noroeste.
Bunda aparece à direita e abaixo do planeta Marte (à esquerda e acima, para observadores no hemisfério norte) - Imagem gerada por YourSky web app.

 

Conhecendo Bunda

(OK, chega de piadinhas!)

 

Na verdade há duas partes da Bunda (só mais esta!), pois trata-se de um sistema binário (isto é, duas estrelas orbitando-se mutualmente)* situado a, segundo medidas de paralaxe do satélite Hipparcos, 179 anos-luz de distância daqui. 

 

Ou seja, em 2019, a luz chegando à retina de qualquer observador aqui na Terra, terá na verdade saído da estrela no longíquo ano de 1840 - mesmo ano em que foi lançado o Penny Black - primeiro selo postal do mundo; ou quando o mestre do gótico, Edgar Allan Poe ainda estava por publicar, no ano seguinte, "Os Assassinatos na Rua Morgue" ou a então jovem Rainha Vitória (tataravó da Rainha Elizabeth II) [Isabel II, no português lusitano] havia acabado de iniciar seu longo reinado - que duraria até 1901 - há apenas 3 anos! 

 

  A classificação estelar de seus dois componentes é:

A componente principal - a que teve a designação de "Bunda" - é ξ Aquarii A (o componente A de um sistema binário é o de maior massa) e é classificada A7 V, isto é, uma enorme estrela branca (o sol é amarelado).
Essa é a mesma classe espectral das nossas conhecidíssimas Altair, na constelação da águia (A7 V também) ou de Sírius, a estrela mais brilhante no céu (A1 V) e Vega, na constelação da Lira (A0 V).



Com massa de 1,9x a do nosso Sol, ela é quase duas vezes mais "pesada" que este. Os componentes dessa classe porém, não chegam a ter seu diâmetro 2 vezes maior que o do sol. Isto é, a Terra, em analogia de tamanho, seria uma ervilha em comparação ao Sol que por sua vez seria uma bola de basquete; Bunda seria uma melancia das grandes.

Já sua companheira, ξ Aquarii B, especula-se, pode ser uma anã vermelha ou branca.

 

Fala sério!

 

 Independente das inevitáveis piadas, as quais, a exemplo do que já acontece em inglês com o planeta Urano - que, para quem não sabia ainda, é pronuciado algo como YOUR-ANUS (entendeu!?) - espero ter deixado claro aos interessados em simplesmente contemplar o céu - iniciantes ou não - a verdadeira inclusão à qual se propões a astronomia amadora, ao, na sua forma mais simples, não exigir que seu praticante (você) seja dono de instrumentos caríssimos - mas sim, que seja dono de um bom par de olhos (ou não, para quem apenas se contenta em ler ou que não possua o dom da visão) e de sede de conhecimento!


Espero que, esta minha primeira postagem, tenha obtido êxito nessa missão. 

Quer seja por conta de analogias (a distância que a luz do objeto observado levou para chegar aqui *2, ou as analogias de tamanho com nossa Terra, para melhor entendimento)  , quer seja pelo humor leve, ter deixado isso claro, de certa forma.


*1 (somente para astrônomos) Não adianta correr pegar o telescópio para tentar separar os dois componentes: trata-se de uma binária espectroscópica, (separação de 0,2 segundos de arco, segundo o SkySafari) e não visual.

 

 *2 Aguardem mais postagens a respeito desse assunto.