Foto da estrela - Copyright (C) The SIMBAD astronomical database
Independentemente de sua experiência como astrônomo amador, aposto que nunca ouviu falar da estrela Bunda, ouviu?
Pois é. Não se surpreenda; isso não é nenhuma zoeira minha não:
Trata-se de uma estrela discreta, pouco brilhante, que, apesar de sua obscuridade, tem tudo para, ao menos no Brasil, onde a palavra "bunda" possui um significado, hmm... "importante" (nádegas, para quem é de fora), a estrela possivelmente irá virar motivo de piadinhas e chacota por membros de inúmeros grupos de astronomia espalhados pelo Facebook, Whatsapp etc., do tipo "Vamos ver a bunda?" e até como será meu caso, no próprio clube astronômico ao qual pertenço - o CAS (Clube de Astronomia de Sarandi), aqui pertinho de Maringá, onde moro - no qual lógico, serei o primeiro a fazer tão importante "comunicado"!
Que nome!
A estrela em particular é a Ksi Aquarii (pronuncía-se "ksí aquári"), ou, mais precisamente, "ξ Aquarii", que agora, possui esse nome inusitado, agora oficializado pela União Astronômica Internacional (IAU, em inglês).
Lógico que esse nome, é apenas, como acontece com todas as estrelas, uma de várias denominações dadas à estrela por diversos catálogos, que vão do famoso catálogo de Bayer (letra grega ou latina seguida do genitivo da constelação à qual pertence) ou qualquer outro como Henry Draper (HD205767), o nome do catálogo do satélite Hipparcos (HIP106786) ou ainda do catálogo do observatório de Yale (HR8264), dentre vários outros, como é comum com denominações estelares.
A Bunda Tá Aparecendo?
Se você está se perguntando o porquê de nunca ter ouvido falar na Bunda, o motivo é simples: Foi há pouco tempo, junho último (2018) que a IAU parece ter oficializado este nome, juntamente com 23 outras estrelas - como "La Superba" (Y Canum Venaticorum) e "Felis" (HR 3923) - à sua longa lista de nomes oficiais próprios de estrelas, como pode ser visto aqui e também ilustrado abaixo.
Vendo Observando Bunda
"E como faço para ver observar a bunda?", você deve estar se perguntando.
Bem, a boa notícia é que não será necessário nenhum telescópio enorme, ultra-fodástico; nem mesmo binóculos.
Pois com magnitude 4,8, só não será possível vê-la a olho nú nos céus com poluição luminosa mais severa (isto é, nos grandes centros urbanos).
Já para quem mora nos bairros longe do centro da cidade (acho que 95% de todos os brasileiros e portugueses), ou para os pouquíssimos felizardos que moram em céus mais escuros (Bortle 5 ou menor) ela será relativamente fácil de se ver.
Note no entanto, à exceção dos astrônomos "mateiros", que conhecem bem o céu, ser "fácil de se observar" não significa necessariamente que seja "fácil de se encontrar"!
Porém, desde que se conheça o céu, ou então que você saiba usar um mapa estelar - impresso ou em uma app no seu smart phone, encontrá-la não será, com vontade própria aliada à curiosidade, problema algum.
Como pode ser visto pela legenda, o mapa abaixo foi feito com base na latitude de Maringá e, com exceção dos planetas, será visível à noite, de agosto a dezembro, nessa região do céu durante qualquer ano que você esteja porventura lendo este artigo.
Céu visto à 23º de latitude sul (Maringá-PR) no final de outubro de 2018 às 21 horas na direção oeste-noroeste. Bunda aparece à direita e abaixo do planeta Marte (à esquerda e acima, para observadores no hemisfério norte) - Imagem gerada por YourSky web app.
Conhecendo Bunda
(OK, chega de piadinhas!)
Na verdade há duas partes da Bunda (só mais esta!), pois trata-se de um sistema binário (isto é, duas estrelas orbitando-se mutualmente)* situado a, segundo medidas de paralaxe do satélite Hipparcos, 179 anos-luz de distância daqui.
Ou seja, em 2019, a luz chegando à retina de qualquer observador aqui na Terra, terá na verdade saído da estrela no longíquo ano de 1840 - mesmo ano em que foi lançado o Penny Black - primeiro selo postal do mundo; ou quando o mestre do gótico, Edgar Allan Poe ainda estava por publicar, no ano seguinte, "Os Assassinatos na Rua Morgue" ou a então jovem Rainha Vitória (tataravó da Rainha Elizabeth II) [Isabel II, no português lusitano] havia acabado de iniciar seu longo reinado - que duraria até 1901 - há apenas 3 anos!
A componente principal - a que teve a designação de "Bunda" - é ξ Aquarii A (o componente A de um sistema binário é o de maior massa) e é classificada A7 V, isto é, uma enorme estrela branca (o sol é amarelado). Essa é a mesma classe espectral das nossas conhecidíssimas Altair, na constelação da águia (A7 V também) ou de Sírius, a estrela mais brilhante no céu (A1 V) e Vega, na constelação da Lira (A0 V).
Com massa de 1,9x a do nosso Sol, ela é quase duas vezes mais "pesada" que este. Os componentes dessa classe porém, não chegam a ter seu diâmetro 2 vezes maior que o do sol. Isto é, a Terra, em analogia de tamanho, seria uma ervilha em comparação ao Sol que por sua vez seria uma bola de basquete; Bunda seria uma melancia das grandes.
Já sua companheira, ξ Aquarii B, especula-se, pode ser uma anã vermelha ou branca.
Fala sério!
Independente das inevitáveis piadas, as quais, a exemplo do que já acontece em inglês com o planeta Urano - que, para quem não sabia ainda, é pronuciado algo como YOUR-ANUS (entendeu!?) - espero ter deixado claro aos interessados em simplesmente contemplar o céu - iniciantes ou não - a verdadeira inclusão à qual se propões a astronomia amadora, ao, na sua forma mais simples, não exigir que seu praticante (você) seja dono de instrumentos caríssimos - mas sim, que seja dono de um bom par de olhos (ou não, para quem apenas se contenta em ler ou que não possua o dom da visão) e de sede de conhecimento!
Espero que, esta minha primeira postagem, tenha obtido êxito nessa missão.
Quer seja por conta de analogias (a distância que a luz do objeto observado levou para chegar aqui *2, ou as analogias de tamanho com nossa Terra, para melhor entendimento) , quer seja pelo humor leve, ter deixado isso claro, de certa forma.
*1 (somente para astrônomos) Não adianta correr pegar o telescópio para tentar separar os dois componentes: trata-se de uma binária espectroscópica, (separação de 0,2 segundos de arco, segundo o SkySafari) e não visual.
*2 Aguardem mais postagens a respeito desse assunto.