Dicas de observação - a olho nú, com binóculo ou telescópio - para o astrônomo amador iniciante ou avançado.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Publicações Marcantes

Se hoje passo muitas noites de olho no céu, devo isso a um hábito que começou quando eu tinha 10 ou 11 anos, mas que se reforçou ainda mais quando eu ia dos 16 para os 17.

No final dos anos 1980, o Brasil vivia uma efervescência de divulgação científica. Dá para citar ao menos duas revistas importantes dessa época: a Ciência Hoje, criada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e a Revista Geográfica Universal (uma clara alusão, até na diagramação da capa, à célebre National Geographic), editada pelo Grupo Bloch (fundador da Rede Manchete de televisão). É claro que a então toda-poderosa Editora Abril — dona de inúmeros títulos já consagrados, de revistas em quadrinhos a conteúdos de nicho — não deixaria de fincar aí sua bandeira.

1987: Uma supernova nos céus, outra nas bancas de revista

Foi nesse contexto que surgiu a Superinteressante, em setembro de 1987 — quando grande parte dos astrônomos profissionais do mundo tinha ainda seus instrumentos científicos apontados para a recém-descoberta supernova extragalática 1987A, que havia explodido na Grande Nuvem de Magalhães em fevereiro daquele ano (claro, 160 mil anos antes, na escala cósmica). 

A diversificada equipe de profissionais da revista — lideradas então pelo competente editor-fundador Almyr Gajardoni — tinha inicialmente apenas a meta de traduzir a espanhola Muy Interesante. Porém — felizmente para nós — não teve escolha senão produzir reportagens próprias depois que o time técnico concluiu que os fotolitos espanhóis  (as chapas de impressão) eram maiores do que os brasileiros. O resultado, provavelmente para surpresa de zero pessoas, foi um sucesso: a Abril viu a vendagem de exemplares avulsos e o número de assinantes crescerem vertiginosamente da noite para o dia.


 

Um Gigante da Astronomia Brasileira

Para aquele adolescente já fissurado em ciência e astronomia, um nome se destacava em meio a páginas de tanta qualidade: Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Mourão não era apenas um entusiasta divulgador da astronomia; ele era um acadêmico de prestígio internacional. Doutor pela Universidade de Paris com menção Très Honorable, construiu uma carreira sólida estudando estrelas duplas e asteroides em observatórios na Bélgica, na França e no Chile. Sua importância para a ciência é tamanha que o asteroide 2590, descoberto em 1980, foi batizado com seu nome em homenagem ao seu trabalho incansável.

Se os astrônomos amadores britânicos tiveram Sir Patrick Moore (que propôs a criação do Catálogo Caldwell), os brasileiros tiveram o Professor Mourão. Assim como Moore, Mourão entendeu que a ciência precisava sair das cúpulas dos observatórios e ganhar as ruas — ou, no meu caso, o quintal de casa.

Recorte da coluna Telescópio, escrita por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão para a revista Superinteressante.

A Didática que Vinha nas Bancas de Jornal

Lembro-me especificamente de ler sua coluna em setembro de 1988 sobre o "companheiro fantasma" da Supernova 1987A. Com clareza impressionante, ele explicava como a técnica de interferometria granular revelou um objeto misterioso ao sul da supernova, desafiando as teorias da época. Apresentava conceitos complexos como "velocidades relativistas" e "miragens gravitacionais" de um jeito que fazia qualquer jovem de 16 anos se sentir um pequeno cientista.

Mourão tinha uma produtividade assustadora: escreveu mais de cem livros e mil ensaios. Foi o responsável por todos os verbetes de Astronomia do dicionário Aurélio e idealizou o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), do qual foi o primeiro diretor. Única era sua capacidade de transitar entre o rigor da academia e a poesia do quadro O Céu do Brasil, que apresentava no "Projeto Minerva", programa oficial do governo no rádio (nos moldes de A Voz do Brasil), exibido nos anos 1970 — cujos episódios ainda dá para ouvir, em boa amostra, no acervo digital da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

O Legado no Quintal

De volta à Superinteressante, através da coluna "Telescópio", acompanhávamos suas missões no Observatório Europeu Austral (ESO) e suas descobertas de asteroides em parceria com astrônomos estrangeiros. Ele não apenas nos dava dados; dava o contexto e a paixão necessários para manter os olhos voltados para cima.

Hoje, décadas depois, percebo que a semente plantada por aquelas colunas de final de mês floresceu. Se eu, através deste blog, conseguir difundir a astronomia com uma fração da didática do renomado cientista, ele já terá cumprido seu papel.

E você? Também teve seu interesse despertado pelo Professor Mourão ou por alguma leitura marcante de outro cientista ou autor da juventude? Compartilhe suas memórias nos comentários!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Publicações Marcantes

Encarte "A Leitura do Céu" -
Revista Superinteressante - Agosto de 1989
(Artigo publicado em agosto de 2019)



Iniciando esta série - que lida com publicações de grande peso na observação astronômica, não poderia deixar de fora não só a Revista Superinteressante -  - principalmente as dos anos 80 e 90 com suas excelentes matérias na área da astrofísica e astronomia, bem como a coluna mensal "Telescópio", do saudoso cientista-divulgador Ronaldo Rogério de Freitas Mourão - delibero brevemente, por não mais o possuir, sobre este encarte que acompanhou a revista naquele importante mês que foi agosto de 1989 para a astronomia.

E que mês!

    A sonda Voyager 2, vindo do encontro com o planeta Urano três anos antes, enviaria no dia 25 daquele mesmo mês as primeiras fotos do lindo globo azul-celeste de Netuno - bem como suas gélidas luas. 

Aconteceu ainda naquele mês um eclipse lunar total visto do Brasil, que para mim teve um significado muito especial, já que foi o primeiro eclipse lunar (e total) que pude acompanhar do começo ao fim - binóculo barato e "luneta espiã" (ambos da marca DF Vasconcelos) na mão e a companhia de amigos - ao som da então única versão de "Starman" do grande David Bowie que conhecia: "O Astronauta de Mármore" da banda Nenhum de Nós, que tocou no rádio, hit que era à época, umas duas vezes durante as 4 ou 5 horas em que observava o eclipse, ainda no resquício de inverno que restava, de dentro do Fiat 147 da família estacionado na rampa de nossa pequena garagem na casa de minha infância/adolescência - agora já sozinho, pois nenhum amigo, nem tampouco meu irmão, eram tão "viciados no espaço" como eu já era. 

A experiência!? Surreal!

Em relação ao encarte, além do assunto ser (desculpem o trocadilho) interessantíssimo; isto é, observação astronômica a olho nú ou por instrumentos; a maioria dos artigos era, muito felizmente, assinada pelo próprio professor Mourão.

Marcado na memória

Como por enquanto, não possuou mais ainda uma cópia física do encarte, não poderei me ater a detalhes de cada artigo. Mas lembro bem das instruções para construção do astrolábio caseiro da capa, bem como de instruções precisas (lógico, vindas do grande mestre, já viu né!) de como conhecer  e observar o céu.

Antes e depois

 Finalmente, num desses saudosismos aos quais podemos nos entregar na meia idade, lembro de uma passagem onde ele mencionava algo como "para este objeto, um instrumento de 200mm é mais adequado". Ora, agora possuindo (desde 2011) um Celestron C8 da exata abertura, esta recomendação não parece tão inatingível como foi para mim à epoca.

Que bom que, com força de vontade e dedicação, evoluímos não só em nosso aprendizado das ciências, mas também na instrumentação necessária!

E você? Lembra-se/ainda possui esse encarte?

Comente abaixo suas impressões e, caso se sinta generoso, porquê não compartilhar um escaneamento completo dele* (feito no celular mesmo) com a gente?


 

* Pela época da publicação, já não há problemas com direitos autorais, visto que não é um livro, que pode ter reedições, mas sim um encarte publicado uma vez só.