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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Estudos põem em cheque se a "colisão" entre a Via Láctea e Andrômeda é tão certa quanto falam.

Estudos de 2025 e 2026 divergem sobre o choque entre a Via Láctea e a galáxia de Andrômeda. Entenda como o movimento lateral das galáxias afeta essa previsão.

Se você acompanha notícias de Astronomia há algum tempo, provavelmente já leu esta afirmação com tom de certeza absoluta: daqui a cerca de quatro bilhões de anos, a nossa Via Láctea vai colidir com a galáxia de Andrômeda (M31). Durante décadas, esse evento monumental foi tratado como o destino inevitável do nosso canto do Universo.

No entanto, a ciência não trabalha com profecias, mas com medições e margens de erro. E as medições mais recentes transformaram o que parecia um fato consumado em um intenso debate astrofísico.

Dois estudos — um publicado em 2025 e outro em 2026 — chegaram a conclusões conflitantes. No primeiro, um grupo de pesquisadores indicou que o choque pode simplesmente não acontecer. Meses depois, uma nova análise dos mesmos dados trouxe a colisão de volta ao radar, mas com um prazo diferente.

Para entender por que esse fim do nosso Grupo Local de galáxias como o conhecemos está sendo recalculado, precisamos olhar não apenas para o que as galáxias estão fazendo, mas para a extrema dificuldade de medir um movimento lateral a 2,5 milhões de anos-luz de distância.

Fotografia profunda da Galáxia de Andrômeda, mostrando seu núcleo brilhante e braços espirais repletos de faixas de poeira escura.
Andrômeda (M31) está se aproximando de nós a cerca de 110 km/s. O debate atual concentra-se no minúsculo deslocamento lateral da galáxia, que determinará se haverá uma colisão direta ou um sobrevoo orbital. Crédito: NASA / ESA / Hubble.

O choque galáctico em suspenso

Primeiro, em um estudo publicado na revista Nature Astronomy em 2025, uma equipe liderada pelo astrofísico Till Sawala utilizou dados dos telescópios espaciais Gaia e Hubble para simular o futuro do nosso vizinho cósmico. A grande inovação desse trabalho foi incluir o peso gravitacional de terceiros na equação: a Grande Nuvem de Magalhães (galáxia satélite da Via Láctea) e a Galáxia do Triângulo (M33, companheira de Andrômeda).

A gravidade dessas galáxias menores altera sutilmente as trajetórias das maiores. Ao rodar as simulações com esse cenário mais complexo, a probabilidade de uma colisão em um prazo de cinco bilhões de anos cairia para menos de 2% — a mesma de, digamos, se ter dois dias chuvosos consecutivos num prazo de 100 dias; ou de um casal ser canhoto. Mesmo estendendo o relógio para dez bilhões de anos, a chance de um impacto ficaria em torno de 50% — aqui, a probabilidade de um mero cara ou coroa.

A conclusão central do artigo científico foi clara: o encontro eventual não pode mais ser considerado inevitável pois havia uma chance substancial de as duas galáxias apenas passarem de raspão uma pela outra, em uma dança orbital que duraria bilhões de anos adicionais.

A colisão retorna aos modelos

Esse impasse, porém, durou pouco tempo. Um estudo publicado alguns meses depois, já em 2026 pelo pesquisador Y. Wu e seus colaboradores decidiu olhar mais a fundo para a forma como os dados do telescópio Gaia estavam sendo interpretados.

Eles realizaram uma recalibração rigorosa do chamado movimento próprio de Andrômeda, que é a medida de como a galáxia se desloca lateralmente contra o fundo das estrelas. Com os dados ajustados, a simulação mudou de figura. A probabilidade de fusão voltou a ser muito mais alta, com um tempo mediano estimado em 6,5 bilhões de anos.

Apesar da diferença drástica em relação ao estudo de 2025, a equipe de 2026 destacou um ponto fundamental: o resultado é extremamente sensível aos valores de movimento próprio adotados. Uma minúscula alteração na medição da velocidade lateral pode mudar o destino de duas galáxias inteiras.

O problema do movimento lateral

Por que os astrônomos conseguem calcular a órbita de um asteroide com precisão de metros, mas divergem sobre o impacto de uma galáxia de um trilhão de estrelas?

O obstáculo está na geometria da observação. É relativamente fácil medir a velocidade radial de Andrômeda, ou seja, o quão rápido ela se aproxima ou se afasta de nós. A luz de M31 apresenta um desvio para o azul (blueshift), o que nos diz, com muita segurança, que ela está se aproximando da Via Láctea a cerca de 110 quilômetros por segundo.

O desafio monumental é medir a velocidade transversal (o movimento próprio). Trata-se do deslocamento lateral de Andrômeda no céu. Como ela está a 2,5 milhões de anos-luz de distância, esse movimento lateral aparente é minúsculo, medido em micro-segundos de arco por ano. É o equivalente a tentar observar, daqui da Terra, o crescimento do cabelo de um astronauta que estivesse na superfície da Lua.

Diagrama mostrando um objeto no espaço com uma seta apontando em direção à Terra (velocidade radial) e outra seta perpendicular a ela (velocidade transversal ou movimento próprio).
Enquanto a velocidade radial é medida com facilidade através do espectro de luz, o movimento lateral (transversal) exige comparar posições incrivelmente pequenas contra o fundo cósmico ao longo de anos.

Se o movimento lateral for próximo de zero, a colisão será um impacto direto. Se for ligeiramente maior, as galáxias errarão o alvo inicial. O debate entre os estudos de 2025 e 2026 nasce exatamente da calibração dessa minúscula margem de erro.

O que isso significa para o futuro

Independentemente de qual cenário se confirme nas próximas medições astrométricas, é importante lembrar que o relógio galáctico opera em uma escala que a Terra, infelizmente, não acompanhará.

Mesmo a previsão mais otimista de 5 bilhões de anos coloca o evento muito além da expectativa de vida do nosso planeta da forma como o conhecemos. Em cerca de cinco bilhões de anos, o Sol esgotará o hidrogênio de seu núcleo, expandindo-se em uma gigante vermelha que provavelmente engolirá Mercúrio, Vênus e, possivelmente, a Terra.

Quando — e se — as estrelas da Via Láctea e de Andrômeda finalmente se cruzarem, o Sistema Solar já será um sistema fantasma, iluminado apenas pela fraca luz de uma anã branca com alguns  planetas  carbonizados, como Marte ou chamuscados, como os gigantes gasosos, como lembrança do que um dia foi nossa casa no universo.

Para nós, observadores no presente, Andrômeda continua sendo o objeto mais distante visível a olho nu. Saber que sua trajetória exata ainda desafia nossos melhores telescópios espaciais não diminui em absolutamente em nada nossa apreciação por ela. Pelo contrário: transforma tal mancha difusa visível em noites escuras em um lembrete físico de que o Universo é dinâmico, complexo e ainda está testando os limites da nossa capacidade de medi-lo.

O quê você acha que irá acontecer com ambas as galáxias? Deixe sua opinião nos comentários.

Referências

  • Sawala, T., et al. (2025). The eventual encounter is therefore not currently established as inevitable. Nature Astronomy. Disponível em: Nature.
  • Wu, Y., et al. (2026). A preprint using recalibrated Gaia proper motions. arXiv. Disponível em: arXiv.