Nem sempre o que salta aos olhos é agradável ao cérebro.
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| Kelly Sikkema - Unsplash |
Uma pergunta
Qual dos comentários abaixo você prefere ouvir, ao mostrar a lua, Júpiter, Saturno ou um aglomerado globular no seu telescópio a um amigo, parente ou um completo desconhecido nas sessões públicas do seu clube?
a) "Nossa! Que telescópio grande! Aposto que custou uma nota!"?
ou apenas:
b) "Uau!" ?
Eu particularmente acho que, se alguém está na astronomia apenas pra ouvir o primeiro comentário, provavelmente escolheu o hobby errado.
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| C. Barks - Walt Disney Comics |
Dadas as evidências, minha opinião é que essa pessoa provavelmente se satisfaria mais gastando dinheiro em som automotivo para competição, por exemplo - onde gastos com equipamento são, lógico, proporcionais ao número de elogios (e massagens no ego) recebido dos outros participantes.
Ou então, apelando pro viés cômico, tentar ficar sócio de um daqueles caricatos clubes de bilionários das histórias do Tio Patinhas escritas por Carl Barks e ficar se vangloriando e fazendo apostas estrambóricas com os demais magnatas, enquanto fuma um charuto cubano e degusta seu
brandy.
Desserviço
Massagens no ego à parte, acho que o "astrônomo" que se satisfaz com o primeiro tipo de comentário, não está só no hobby errado, mas está também prestando um verdadeiro
desserviço à comunidade astronômica amadora ao não combater o mito de que uma ciência tão inclusiva como a astronomia seria um hobby para uns poucos olhos e bolsos privilegiados; algo que só neurologistas ou desembargadores aposentados, com grana sobrando podem fazer.
Claro que não é!
Em nome do bom senso, temos que deixar claro à esta pessoa - que na ocasião vai estar receptiva a quase tudo que você disser -
o quão inclusiva a astronomia amadora é.
Esclarecer que, ao menos para se começar, não são necessários nada mais que o par de olhos e cérebro que essa pessoa já possui e mais tarde, caso ela realmente interesse a aprender mais sobre o céu e o que vê nele, a aí sim adquirir um par de binóculos ou "tele".
Felizmente...
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| Mostafa Meraji - Unsplash |
Felizmente a maioria dos astrônomos amadores não pensa de maneira consumista. Maioria esta que conheci tanto aqui no Brasil como na Inglaterra, quando participei de alguns eventos da
Abingdon Astronomical Society, na região de Oxford, e comecei a observar mais seriamente.
Muito astrônomos amadores estão no hobby movidos por aquela curiosidade que vem os consome desde garotos e que os faz sentir uma verdadeira fascinação não só por telescópios (ou binóculos) que, diga-se de passagem, são para o astronomo, o que o martelo é para o carpinteiro, ou o macaco para o mecânico - apenas
ferramentas de captar luz! Ferramentas estas que facilitam acesso ao conhecimento de algo que "está lá, mas não dá pra ver".
E é com base nesse conhecimento que afirmo ser o contexto
o mais poderoso aliado da astronomia observacional.
"
contexto
/ê/
substantivo masculino
1.
inter-relação de circunstâncias que acompanham um fato ou uma situação.
"
Ele é a maneira mais eficaz (e barata) de evitar cair no marasmo e ficar observando sempre os mesmos velhos objetos "batidos" de sempre, como lua, nebulosa de Órion e afins- com todo o respeito às respectivas grandiosidades e noites de observação frutífera que eles proporcionam!
Enjoou de astronomia visual e acha que ela é uma espécie de "astronomia de pobre" e acha que só a astrofotografia poderá te salvar do tédio!?
Sua GOTO, apesar de ter um imenso banco de dados, aponta, na maioria, para "nuvenzinhas sem graça"?
Pois é, caro astrônomo, está faltando contexto na sua astronomia!
Sim, já que ela possibilíta-nos entender desde uma reles piada a um ponto de vista de um especialista.
Menos materialismo e mais substância, por favor
Para que caiu/está caindo no marasmo astronômico, minha recomendação é simplesmente fazer aquilo que venho praticando há décadas: aprender, aprender e aprender!
Seja através de livros, websites, videos, etc.
Ainda mais nos tempos atuais, aonde não há desculpas para não conhecermos ao menos um pouco sobre o que observamos.
Por exemplo, um dos objetos que mais me deu satisfação em observar (em mais de uma ocasião, pois acabou deixando um gostinho de "quero mais") foi o distante quasar 3C 273 em Virgem, situado a 2 bilhões de anos-luz daqui (põe distante nisso!).
Nem bonito era: uma mera "estrelinha" de magnitude 12,7 situada numa região do céu geralmente mais visada por donos de telescópio por conta das inúmeras galaxias alí observáveis - tanto sozinhas ou, mais comumente em aglomerados de galáxias.
Porém, o contexto está em imaginar "ao pé da ocular" que, quando a luz que agora atingia minha retina, formando a imagem estelar (insignificante, alguns diriam) partiu desse nucleo ativo de galáxia em sua jornada de 2 bilhões de anos até nossa Terra, esta passava ainda pelo primeiro período geológico, o Pré-Cambriano, na era Paleoproterozóica (que nome!), que foi aquela onde, dentre outras coisas, houve uma liberação maior de oxigênio no planeta fazendo, com a oxidação, com que os oceanos adquirissem a cor azul de hoje em dia e surgissem os primeiros organismos eucariontes (isto é, cujas células possuem núcleo definido, cercado por membrana e que que viria a gerar os primeiros organismos pluricelulares) - ou seja, bem antes dos dinossauros, que surgiriam somente cerca de 1,2 bilhões de anos mais tarde!!
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| K.M. Towe, NASA |
Muito além da imagem
Então? Dá ou não dá para curtir a astronomia mais ainda, sob essa ótica multidisciplinar?
Pois é justamente esse contexto que mantém viva em mim a chama da busca pelo conhecimento e que me leva a dedicar-me à astronomia, não uma mera imagem bonitinha vista por equipamentos que mais impressionam pelo visual externo que pelo conhecimento inerente que trazem, meros instrumentos que são.
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| Greg Rakozy - Unsplash |
Portanto, se está chateado, faça um favor a si mesmo e à sua inteligência: satisfaça seu cérebro; não apenas seus olhos.
Observe objetos e sempre pergunte-se coisas do tipo, conformer a categoria deste:
Se for estrelas: "É uma variável?", "É uma subgigante ou gigante?", "O que faz uma estrela de carbono ser tão vermelha?";
Sistema solar: "A quantas horas-luz esse planeta está daqui?" ou "Quais as propriedades desta lua? Ela poderia sustentar vida?"
Céu profundo: "Essa nova/supergigante poderá virar supernova num futuro não tão distante?", "Quando a luz dessa galáxia saiu de lá, o que se passava aqui na terra?"
Tá vendo como dá para tirar muito mais proveito da astronomia que elogios a equipamento ou "fotinhas" bonitinhas!?