Dicas de observação - a olho nú, com binóculo ou telescópio - para o astrônomo amador iniciante ou avançado.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Meteorologia Planetária

Transientes

Notícias astronômicas rápidas

 

O planeta com os ventos mais fortes do sistema solar só pode ser Júpiter, correto?

Errado. Nem tampouco é Saturno - outro gigante gelado - ou Vênus e seu efeito estufa extremo; mas sim Netuno.

Acontece que o gigante azul (cerca de 3 vezes o tamanho da Terra) possui várias tempestades-furacões ao estilo de Júpiter - inclusive uma delas, conhecida como A Grande Mancha Negra, têm tamanho similar ao da famosa Grande Mancha Vermelha jupiteriana, isto é, o tamanho do nosso planeta!

Netuno em cores reais fotografado pela Voyager 2 (JPL/NASA)

Nas cercanias dessa gigantesca tempestade com ventos de até 2 mil quilômetros por hora foram medidos pela nave Voyager 2, por ocasião de sua passagem pelo planeta em 1989. Ou seja, cerca de 3 vezes a velocidade eólica em Júpiter e 10 vezes maior que nossos típicos tufões e furacões mais poderosos aqui na Terra!
Fonte: SkySafari 6 - Neptune

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Publicações Marcantes

Encarte "A Leitura do Céu" -
Revista Superinteressante - Agosto de 1989
(Artigo publicado em agosto de 2019)



Iniciando esta série - que lida com publicações de grande peso na observação astronômica, não poderia deixar de fora não só a Revista Superinteressante -  - principalmente as dos anos 80 e 90 com suas excelentes matérias na área da astrofísica e astronomia, bem como a coluna mensal "Telescópio", do saudoso cientista-divulgador Ronaldo Rogério de Freitas Mourão - delibero brevemente, por não mais o possuir, sobre este encarte que acompanhou a revista naquele importante mês que foi agosto de 1989 para a astronomia.

E que mês!

    A sonda Voyager 2, vindo do encontro com o planeta Urano três anos antes, enviaria no dia 25 daquele mesmo mês as primeiras fotos do lindo globo azul-celeste de Netuno - bem como suas gélidas luas. 

Aconteceu ainda naquele mês um eclipse lunar total visto do Brasil, que para mim teve um significado muito especial, já que foi o primeiro eclipse lunar (e total) que pude acompanhar do começo ao fim - binóculo barato e "luneta espiã" (ambos da marca DF Vasconcelos) na mão e a companhia de amigos - ao som da então única versão de "Starman" do grande David Bowie que conhecia: "O Astronauta de Mármore" da banda Nenhum de Nós, que tocou no rádio, hit que era à época, umas duas vezes durante as 4 ou 5 horas em que observava o eclipse, ainda no resquício de inverno que restava, de dentro do Fiat 147 da família estacionado na rampa de nossa pequena garagem na casa de minha infância/adolescência - agora já sozinho, pois nenhum amigo, nem tampouco meu irmão, eram tão "viciados no espaço" como eu já era. 

A experiência!? Surreal!

Em relação ao encarte, além do assunto ser (desculpem o trocadilho) interessantíssimo; isto é, observação astronômica a olho nú ou por instrumentos; a maioria dos artigos era, muito felizmente, assinada pelo próprio professor Mourão.

Marcado na memória

Como por enquanto, não possuou mais ainda uma cópia física do encarte, não poderei me ater a detalhes de cada artigo. Mas lembro bem das instruções para construção do astrolábio caseiro da capa, bem como de instruções precisas (lógico, vindas do grande mestre, já viu né!) de como conhecer  e observar o céu.

Antes e depois

 Finalmente, num desses saudosismos aos quais podemos nos entregar na meia idade, lembro de uma passagem onde ele mencionava algo como "para este objeto, um instrumento de 200mm é mais adequado". Ora, agora possuindo (desde 2011) um Celestron C8 da exata abertura, esta recomendação não parece tão inatingível como foi para mim à epoca.

Que bom que, com força de vontade e dedicação, evoluímos não só em nosso aprendizado das ciências, mas também na instrumentação necessária!

E você? Lembra-se/ainda possui esse encarte?

Comente abaixo suas impressões e, caso se sinta generoso, porquê não compartilhar um escaneamento completo dele* (feito no celular mesmo) com a gente?


 

* Pela época da publicação, já não há problemas com direitos autorais, visto que não é um livro, que pode ter reedições, mas sim um encarte publicado uma vez só.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Aumento vs. Planetas


Qual o aumento necessário no telescópio para deixar os outros planetas do tamanho da lua vista a olhou nú?

(Publicado em novembro de 2018; atualizado em agosto de 2019)

Comparação real do tamanho da lua cheia e Júpiter (com as 4 luas galileianas) numa mesma foto.

Considerando-se o tamanho aparente médio de 32" (32 minutos de arco) de nosso satélite natural e o dos planetas como o tamanho máximo atingido pelos mesmos, a conta é simples:


Mercúrio: 150x

 

Vênus:  30x

 

Marte: 77x *

 

Júpiter: 38x *

 

Saturno: 96x *


Urano: 480x (impraticável em instrumentos com menos de 250mm de abertura, mas dá pra chegar bem perto disso com um de 200mm)


Netuno: 800x (teoricamente viável com dobsonianos de 400mm de abertura, mas à essa altura, condições atmosféricas e fenômenos óticos atrapalhariam muito antes de se atingir esse valor)


Lembrando que, para calcular o aumento utilizado, divida o comprimento focal do seu telescópio pelo comprimento focal da ocular. 

Ex: Meu Celestron C8 possui 2032mm de CF, com uma ocular de 10mm o aumento proporcionado é de cerca de 203 vezes. (2032/10).

 

 

* Para estes planetas, é claro que observadores experientes sabem que dá pra se aumentar muito mais, porém vale lembrar que com ressalvas:


Júpiter: devido ao relativo baixo contraste de sua superfície, aumentos maiores que 200x não trazem tantos benefícios; O que pode beneficiar a visão de maiores detalhes é na verdade instrumentos propriamente colimados ou então, espelhos ATM de qualidade comprovadadamente superior como um Zambuto (americano) - a "ferrari" dos espelhos newtonianos - ou, aqui no nosso pavorosamente escarso mercado astronômico brazuca, um espelho feito por alguém como Sandro Colleti, por exemplo.
 

Saturno: Devido aos pequenos detalhes e divisões de seus anéis, dá para se ir um pouco mais além (cerca de 250x). Mais as mesmas recomendações de colimação e espelho, estipuladas para Júpiter.


Marte: Devido ao alto contraste de sua superfície, a regra para o planeta vermelho é: quanto mais aumento melhor! (limitado, lógico pela abertura do instrumento e condições do céu).

E quanto a Urano e Netuno? Qual aumento seria necessário para ver-se alguma espécie de detalhe em suas superfícies?  Não "ver" mas sim "fotografar" - pois só com excelente domínio da técnica de stacking além de espelhos de 400mm para cima, é que alguém como Damien Peach conseguiu obter detalhes "borrados" desses astros, como brilhantes tempestades em Netuno, por exemplo. (só não espere muito do mais pacato Urano; ainda que sua proximidade e tamanho resultem em um disco aparente maior).

 

Seu Telescópio e a Lua

 

Você Sabia??

Menores características lunares vistas com telescópios amadores: 

 

Lembre-se que os números abaixo advêm de fórmulas óticas considerando um instrumento "ideal". Eles não levam em conta, portanto, limitações do próprio instrumento, aclimatação, condições atmosféricas, etc.

 

Para um instrumento "ideal" de 180mm de abertura:

Diâmetro da menor cratera observável: 2,4 km;

Menor rio de lava seca detectável: 137 metros;

Menor rio completamente resolvível : 1 km.

 

Para um instrumento "ideal" de 200mm de abertura:

Diâmetro da menor cratera observável: 1,76 Km;

Menor rio de lava seca detectável: 101 metros;

Menor rio completamente resolvível : 810 metros.

(Fonte: "Observing the Moon" by Peter T. Wlasuk - 2000, Pg. 108)

 


Aí vem aquela pergunta tão comumente feita a nós amadores durante observações públicas, mas que, pela validade, deve ser tratada com a devida seriedade:

"Dá pra ver os objetos deixados pelas missões Apollo?"


Falarei mais sobre esse assunto específico em breve.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Uma Estrela Chamada Bunda

Você Já Viu a Bunda?

Foto da estrela - Copyright (C) The SIMBAD astronomical database

Independentemente de sua experiência como astrônomo amador, aposto que nunca ouviu falar da estrela Bunda, ouviu?

 

Pois é. Não se surpreenda; isso não é nenhuma zoeira minha não: 

 

 Trata-se de uma estrela discreta, pouco brilhante, que, apesar de sua obscuridade, tem tudo para, ao menos no Brasil, onde a palavra "bunda" possui um significado, hmm... "importante" (nádegas, para quem é de fora), a estrela possivelmente irá virar motivo de piadinhas e chacota por membros de inúmeros grupos de astronomia espalhados pelo Facebook, Whatsapp etc., do tipo "Vamos ver a bunda?" e até como será meu caso, no próprio clube astronômico ao qual pertenço - o CAS (Clube de Astronomia de Sarandi), aqui pertinho de Maringá, onde moro - no qual lógico, serei o primeiro a fazer tão importante "comunicado"!

 

Que nome!

 

A estrela em particular é a Ksi Aquarii (pronuncía-se "ksí aquári"), ou, mais precisamente, "ξ Aquarii", que agora, possui esse nome inusitado, agora oficializado pela União Astronômica Internacional (IAU, em inglês). 

 

Lógico que esse nome, é apenas, como acontece com todas as estrelas, uma de várias  denominações dadas à estrela por diversos catálogos, que vão do famoso catálogo de Bayer (letra grega ou latina seguida do genitivo da constelação à qual pertence) ou qualquer outro como Henry Draper (HD205767), o nome do catálogo do satélite Hipparcos (HIP106786) ou ainda do catálogo do observatório de Yale (HR8264), dentre vários outros, como é comum com denominações estelares.

 

A Bunda Tá Aparecendo?

 

 Se você está se perguntando o porquê de nunca ter ouvido falar na Bunda, o motivo é simples:
Foi há pouco tempo, junho último (2018) que a IAU parece ter oficializado este nome, juntamente com 23 outras estrelas -  como "La Superba" (Y Canum Venaticorum) e "Felis" (HR 3923) - à sua longa lista de nomes oficiais próprios de estrelas, como pode ser visto aqui e também ilustrado abaixo.

 

 

Vendo Observando Bunda

 

"E como faço para ver observar a bunda?", você deve estar se perguntando. 

Bem, a boa notícia é que não será necessário nenhum telescópio enorme, ultra-fodástico; nem mesmo binóculos. 

Pois com magnitude 4,8, só não será possível vê-la a olho nú nos céus com poluição luminosa mais severa (isto é, nos grandes centros urbanos). 

 Já para quem mora nos bairros longe do centro da cidade (acho que 95% de todos os brasileiros e portugueses), ou para os pouquíssimos felizardos que moram em céus mais escuros (Bortle 5 ou menor) ela será relativamente fácil de se ver. 

Note no entanto, à exceção dos astrônomos "mateiros", que conhecem bem o céu, ser "fácil de se observar" não significa necessariamente que seja "fácil de se encontrar"! 

Porém, desde que se conheça o céu, ou então que você saiba usar um mapa estelar - impresso ou em uma app no seu smart phone, encontrá-la não será, com vontade própria aliada à curiosidade, problema algum.

Como pode ser visto pela legenda, o mapa abaixo foi feito com base na latitude de Maringá e, com exceção dos planetas, será visível à noite, de agosto a dezembro, nessa região do céu durante qualquer ano que você esteja porventura lendo este artigo.


Céu visto à 23º de latitude sul (Maringá-PR) no final de outubro de 2018 às 21 horas na direção oeste-noroeste.
Bunda aparece à direita e abaixo do planeta Marte (à esquerda e acima, para observadores no hemisfério norte) - Imagem gerada por YourSky web app.

 

Conhecendo Bunda

(OK, chega de piadinhas!)

 

Na verdade há duas partes da Bunda (só mais esta!), pois trata-se de um sistema binário (isto é, duas estrelas orbitando-se mutualmente)* situado a, segundo medidas de paralaxe do satélite Hipparcos, 179 anos-luz de distância daqui. 

 

Ou seja, em 2019, a luz chegando à retina de qualquer observador aqui na Terra, terá na verdade saído da estrela no longíquo ano de 1840 - mesmo ano em que foi lançado o Penny Black - primeiro selo postal do mundo; ou quando o mestre do gótico, Edgar Allan Poe ainda estava por publicar, no ano seguinte, "Os Assassinatos na Rua Morgue" ou a então jovem Rainha Vitória (tataravó da Rainha Elizabeth II) [Isabel II, no português lusitano] havia acabado de iniciar seu longo reinado - que duraria até 1901 - há apenas 3 anos! 

 

  A classificação estelar de seus dois componentes é:

A componente principal - a que teve a designação de "Bunda" - é ξ Aquarii A (o componente A de um sistema binário é o de maior massa) e é classificada A7 V, isto é, uma enorme estrela branca (o sol é amarelado).
Essa é a mesma classe espectral das nossas conhecidíssimas Altair, na constelação da águia (A7 V também) ou de Sírius, a estrela mais brilhante no céu (A1 V) e Vega, na constelação da Lira (A0 V).



Com massa de 1,9x a do nosso Sol, ela é quase duas vezes mais "pesada" que este. Os componentes dessa classe porém, não chegam a ter seu diâmetro 2 vezes maior que o do sol. Isto é, a Terra, em analogia de tamanho, seria uma ervilha em comparação ao Sol que por sua vez seria uma bola de basquete; Bunda seria uma melancia das grandes.

Já sua companheira, ξ Aquarii B, especula-se, pode ser uma anã vermelha ou branca.

 

Fala sério!

 

 Independente das inevitáveis piadas, as quais, a exemplo do que já acontece em inglês com o planeta Urano - que, para quem não sabia ainda, é pronuciado algo como YOUR-ANUS (entendeu!?) - espero ter deixado claro aos interessados em simplesmente contemplar o céu - iniciantes ou não - a verdadeira inclusão à qual se propões a astronomia amadora, ao, na sua forma mais simples, não exigir que seu praticante (você) seja dono de instrumentos caríssimos - mas sim, que seja dono de um bom par de olhos (ou não, para quem apenas se contenta em ler ou que não possua o dom da visão) e de sede de conhecimento!


Espero que, esta minha primeira postagem, tenha obtido êxito nessa missão. 

Quer seja por conta de analogias (a distância que a luz do objeto observado levou para chegar aqui *2, ou as analogias de tamanho com nossa Terra, para melhor entendimento)  , quer seja pelo humor leve, ter deixado isso claro, de certa forma.


*1 (somente para astrônomos) Não adianta correr pegar o telescópio para tentar separar os dois componentes: trata-se de uma binária espectroscópica, (separação de 0,2 segundos de arco, segundo o SkySafari) e não visual.

 

 *2 Aguardem mais postagens a respeito desse assunto.